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Análise de conjuntura nacional e internacional marca abertura do segundo dia do 7º Congresso da Contraf-CUT

28/03/2026

Jamil Chade revelou impactos do cenário global sobre a soberania brasileira e Camilia Rocha mostrou o cenário da disputa eleitoral deste ano

Depois da aprovação do Regimento Interno, delegados e delegadas deram início às atividades do segundo dia do 7º Congresso Nacional da Contraf-CUT, realizado neste sábado (28), no Guarujá (SP). A programação começou com um painel dedicado à análise da conjuntura internacional e nacional, reunindo especialistas para refletir sobre os impactos das transformações políticas, econômicas e sociais no mundo do trabalho e os desafios impostos à organização sindical no cenário atual.

O debate deu continuidade às discussões iniciadas na abertura do congresso, que reúne lideranças sindicais de todo o país, além de representantes de entidades nacionais e internacionais, em um momento considerado decisivo para a classe trabalhadora diante das mudanças globais, das disputas políticas e das novas configurações econômicas que influenciam diretamente as relações de trabalho.

A mesa contou com a participação virtual do jornalista e correspondente internacional Jamil Chade, referência na cobertura de política externa, direitos humanos e economia global, e da cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e especialista nos estudos sobre a nova direita e o liberalismo no Brasil. Os convidados apresentaram análises sobre o cenário geopolítico mundial, o avanço de movimentos políticos conservadores, as transformações nas democracias contemporâneas e os desafios colocados às organizações sociais e sindicais.

Ao longo do painel, os debatedores destacaram que compreender a conjuntura internacional tornou-se fundamental para interpretar os desafios nacionais enfrentados pelos trabalhadores brasileiros. Temas como o aumento das desigualdades, a reconfiguração do capitalismo global, as crises democráticas e as disputas narrativas foram apontados como elementos centrais para entender o contexto atual e orientar estratégias de resistência, mobilização e organização da classe trabalhadora nos próximos anos.

Disputa global e soberania em jogo

Em participação remota por videoconferência, o jornalista e correspondente internacional Jamil Chade afirmou que o cenário político mundial vive um período de forte tensão e que as decisões políticas nacionais estão diretamente ligadas ao posicionamento estratégico dos países no século XXI. “Sem dúvida nenhuma, essa eleição vai nos dizer quem somos nós no mundo. Somos um quintal ou não? Essa é a questão dos eixos de poder no século 21. O que está em jogo é a nossa soberania. É a eleição que vai decidir quem somos nós no mundo”, afirmou.

Segundo Chade, o planeta atravessa um momento de ebulição política e militar, marcado pelo aumento de conflitos armados e crises humanitárias. “Nos últimos anos o mundo bateu recorde de gastos com armamento militar. É um cenário que nos obriga a refletir sobre quem queremos ser no cenário internacional”, destacou.

O jornalista avaliou ainda que há uma tentativa de reorganização da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos, especialmente a partir da política externa defendida por Donald Trump. “O Trump já avisou que quer o desmantelamento das regras mundiais. Para ele, essas regras representam limites aos objetivos estratégicos norte-americanos”, explicou.

De acordo com Chade, a atual ordem internacional passou a ser vista por setores do governo norte-americano como um obstáculo à expansão econômica e política dos Estados Unidos. “Antes, para guerras de expansão, era necessário criar uma narrativa, uma justificativa. Hoje, nem isso é mais necessário. Está explícito que o objetivo é garantir acesso a recursos estratégicos, como o petróleo, e reposicionar o poder global”, afirmou.

Disputa EUA x China redefine o século

Na análise apresentada aos delegados e delegadas do congresso, Chade destacou que a disputa entre Estados Unidos e China se tornou o principal eixo geopolítico contemporâneo. Segundo ele, Washington reconhece a perda relativa de hegemonia mundial e busca reconstruir sua posição dominante.

“Os Estados Unidos perceberam que perderam parte da hegemonia global. O objetivo agora é criar uma nova estrutura de poder para voltar a ocupar esse posto. Para isso, reduzir a dependência econômica da China tornou-se fundamental”, afirmou.

O jornalista lembrou que lideranças norte-americanas já classificam o país asiático como o maior desafio estratégico da história dos EUA. “Hoje, a China é vista como um desafio maior do que a própria Rússia já foi. Existe o temor de que, se nada mudar, os Estados Unidos passem a depender das decisões econômicas chinesas”, explicou.

Chade ressaltou ainda o crescimento industrial chinês como elemento central dessa disputa. “A China fechou 2025 com um superávit de 1,3 trilhão de dólares e hoje detém cerca de 27% da produção industrial do mundo, podendo chegar a 40%. Esse é o mesmo patamar que os EUA tinham em 1945, quando construíram a ordem mundial que conhecemos”, disse.

América Latina no centro das tensões

Ao abordar o papel da América Latina nesse cenário, o jornalista afirmou que a região se encontra no centro das disputas estratégicas globais. “Nós, na América Latina, estamos no olho do furacão”, alertou.

Segundo ele, o reposicionamento militar e diplomático dos Estados Unidos na região indica uma ofensiva política deliberada. “O que está sendo construído é um escudo de influência que representa, na prática, a subordinação de parte do continente ao poderio militar norte-americano”, ressaltou.

Chade também mencionou o uso da agenda de segurança pública como instrumento geopolítico, citando a classificação de organizações criminosas brasileiras, PCC e Comando Vermelho como terroristas, como tema de política internacional. “Nós conhecemos candidatos no Brasil que defendem esse caminho. Por isso, digo que essa eleição é uma escolha sobre o nosso posicionamento no mundo”, afirmou.

Encerrando sua participação, o jornalista destacou que a política internacional não é um debate distante da realidade dos trabalhadores. “Política internacional é, no fundo, o estudo de quem somos no mundo e de como queremos ser. A disputa pelo século 21 vai definir nossa identidade e adotar uma postura consciente será fundamental para o futuro do Brasil”, concluiu.

Disputa acirrada

“Estamos em uma conjuntura de empate técnico, uma disputa de rejeição entre Lula e Flavio Bolsonaro, e o cenário indica uma disputa extremamente acirrada”, observou, logo no início de reflexão, a pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Camila Rocha, doutora em ciência política pela USP.

Ela ressalta que isso ocorre devido à alta rejeição de ambos os candidatos e que na própria base de Lula (quem recebe até dois salários mínimos), a desaprovação está maior do que aprovação ao atual presidente.

A segurança pública está entre as principais preocupações dos brasileiros, que, mais do que prejuízos financeiros, têm perdas de políticas sociais devido à violência e a insegurança. “E segurança pública, que é uma pauta cada vez mais importante, fortalece a extrema-direita”, disse Camila ao acrescentar que as pessoas estão em um estado de vigilância constante, devido a traumas pessoais e sociais. “As pessoas não conseguem levar filhos na creche, ou a mãe na UBS, pois a área é controlada por facção. As pessoas vivem isolada e estão entrando em depressão”.

Para Camila, as pessoas têm a impressão de que o Estado perdeu o controle das coisas; que operações de força só servem para enxugar gelo e gera ciclo de vingança; mas as operações financeiras para tirar poder do crime organizado não conseguem resolver o problema que elas enfrentam no dia a dia e, por isso, as operações de força são tidas como a melhor opção, pois interferem no cotidiano social.

Além disso, a corrupção, impostos e inflação é atribuída ao Lula e ao Governo Federal.

A pesquisa diz que o bolsonarismo vai se aproveitar destes aspectos utilizando seus pontos fortes (partido digital; lideranças carismáticas; penetração entre evangélicos e ecossistemas de empreendedores e setor neo-extrativistas; homens jovens e mulheres conservadoras e dos trompistas).

Camila orientou usarmos os pontos fracos de Flavio Bolsonaro para evitar o avanço bolsonarista no Senado e minar o avanço da candidatura da direita à presidência.

Ainda neste sábado, o 7º Congresso da Contraf-CUT vai refletir sobre a “transformação no Sistema Financeiro Nacional (SFN) e desregulamentação na esfera do emprego" e a “Organização e comunicação para fortalecer o movimento” e, segue até domingo (29), quando será eleita a nova diretoria da entidade e aprovado o plano de luta para o próximo período.

Fonte: Contraf-CUT

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