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BB não faz proposta e quer jogar a culpa nos próprios funcionários
11/08/2026
Durante mesa de negociações, gestão do banco afirmou que reivindicações por melhorias nas remunerações resultariam na redução de postos, mas sindicatos identificaram distorções nos cálculos

Era início da tarde de quarta-feira, 6 de agosto, quando a dirigente sindical Priscilla Semencio gravava um vídeo-denúncia em uma agência do Banco do Brasil no bairro de Pinheiros, na capital paulista.
"Encontrei a agência fechada não só por falta de sistema, mas também por falta de funcionários. Dias atrás, estive nesta mesma unidade e havia apenas um trabalhador", relatou.
Enquanto o vídeo era publicado nas redes sociais, em outro local da cidade, no bairro Paraíso, ocorria mais uma rodada de negociações entre a Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB) e a gestão do banco.
“São vários os casos de agências que sequer abriram, por falta de pessoal. Na semana passada, a agência de Ipanema ficou de portas fechadas porque contava com apenas uma bancária, e grávida", relatava Alexandre Batista, representante dos bancários do Rio de Janeiro, durante a reunião ligada à campanha nacional da categoria por aumento real e melhores condições de trabalho.
“Estamos registrando desmontes semelhantes em outras cidades do país”, conta a coordenadora da CEBB, Fernanda Lopes.
Durante a mesa de negociação, ela citou um levantamento recente, feito entre os cinco maiores bancos, e que mostrou o Banco do Brasil com os juros mais altos no crédito consignado público.
“Esse é um dado que revela que o BB está priorizando o lucro dos acionistas em detrimento do seu papel como banco público, a serviço do desenvolvimento social e redução das desigualdades. Para além disso, a decisão pelo crédito caro, contribui com a precarização das condições de trabalho, porque as equipes já estão reduzidas, mas ainda precisam bater metas de vendas, que ficaram mais difíceis de serem atingidas justamente porque o BB oferta crédito mais caro do que os concorrentes”, explicou.
Ataque às reivindicações dos trabalhadores
Para mudar esse cenário, os funcionários do BB defendem a abertura de concursos públicos, fim do fechamento de agências, redução das taxas de juros, reajustes salariais e nas demais verbas acima da inflação e melhorias no Programa de Cargos e Salários, que hoje provoca a estagnação de carreiras e perdas reais na remuneração.
No entanto, o que receberam da gestão banco como resposta na última rodada de negociações foram ataques direcionados especificamente aos pedidos de valorização na remuneração.
“Fomos submetidos a uma apresentação, no estilo power point, por meio do qual os negociadores do BB fizeram cálculos para tentar nos convencer de que a aplicação das nossas reivindicações aumentaria tanto os custos com os trabalhadores, que o banco seria obrigado a fechar as portas”, conta Gustavo Tabatinga, representante da Contraf-CUT na CEBB.
“Mas nós rebatemos os argumentos ao mostrar que a gestão do banco deixou de fora dos seus cálculos as verbas adicionais. E que, com essa distorção, estava tentando provar que o BB paga os maiores salários do setor, enquanto a realidade é bem diferente: hoje o que temos é um mecanismo que reduz a verba complementar conforme o bancário avança, travando o ganho real e transformando o piso em teto", explicou o dirigente.
Após a identificação do erro, a reunião terminou sem nenhuma outra proposta por parte da gestão do banco quanto à lista de reivindicações dos funcionários.
“Saímos de mesa frustrados diante das barreiras impostas pela gestão do Banco do Brasil para atender às nossas demandas por reajuste, correções no modelo de remunerações e melhores condições de trabalho", lamentou Fernanda Lopes. “A nossa expectativa é que, na próxima rodada, dia 14 de agosto, o BB pare de atacar a nossa pauta de reivindicações e de culpabilizar o funcionalismo por pedir o justo reconhecimento pelo esforço diário nas agências e nos departamentos”, pontuou.
Não pela tecnologia, nem pela concorrência, mas pelos lucros
O movimento sindical contesta a tese, defendida por todo o setor patronal dos bancos, de que o encerramento de unidades físicas e postos de trabalho é consequência inevitável da digitalização e do aumento da concorrência com empresas que prestam os mesmos serviços, mas que são registradas em outras categorias do ramo financeiro.
“O que eles ocultam é que, na verdade, os bancos estão usando a terceirização, a queda do atendimento aos clientes e a economia com a folha de pagamento, por meio da sobrecarga de funcionários, para lucrarem ainda mais”, aponta Juvandia Moreira, coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidenta da Contraf-CUT. “A demanda por atendimento presencial nos bancos, por exemplo, continua altíssima. Em 2025, foram realizadas 7,2 bilhões de transações em agências bancárias físicas, número que corresponde a uma média de aproximadamente 28,6 milhões de transações por dia útil”, completou.
A dirigente destacou também que 26% dos idosos não tinham acesso à internet, em 2025, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE - percentual que exige a manutenção de postos físicos de atendimento.
A representante sindical observou ainda que enquanto o setor bancário fechava 88 mil postos e 9,5 mil agências, entre 2015 e 2025, os cinco maiores bancos aumentavam em 49% os contratos com correspondentes bancários, terceirizando seus serviços.
No mesmo período de dez anos os postos de atendimento nas cooperativas de crédito, que são, segundo os próprios bancos, suas principais concorrentes, aumentaram em 102%.
“O ramo financeiro, como um todo, não está encolhendo. Pelo contrário, há crescimento em número de postos de trabalho, o saldo dos últimos anos é positivo. O único setor do ramo no sentido contrário é o bancário”, salientou Juvandia.
No período mais recente, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, tirando o setor bancário (com movimentação negativa de 15.289 vagas), o ramo financeiro apresentou movimentação positiva de 23.939 postos de trabalho.
“Os bancos tradicionais reclamam da concorrência, mas foram eles mesmos que abriram espaço para outras empresas, com a decisão de reduzir a qualidade de atendimento aos clientes por meio do fechamento de agências e da sobrecarga dos funcionários. Tudo pelo lucro. Nada pela sociedade”, concluiu Juvandia Moreira.
Fonte: Contraf-CUT